Dividir despesas e receitas com o concorrente também pode ser um bom negócio
Imagine a seguinte situação. Chega ao fim o período de matrículas e sua escola encontra-se diante de um grande dilema: a quantidade de alunos inscritos para o próximo ano, numa das quintas séries, ainda é insuficiente para uma nova formação de turma. E aí está você, com uma decisão a ser tomada. O que fazer? Matricular os alunos assim mesmo, assumindo o prejuízo e “pegando com Deus” para surgirem novos clientes durante o ano? Ou simplesmente entregar aquele pacote de clientes de mão-beijada para o concorrente?
Não estarei sendo leviano, tenho certeza, ao afirmar que boa parte dos gestores educacionais já passou por essa situação. E cada um decidiu correr para uma direção.
Acontece, porém, que naquele mesmo momento esse problema também poderia ser motivo de insônia para o seu concorrente. É, aquele mesmo, da escola que fica do outro lado do bairro.
É precisamente nesse momento que o paradigma do “perde-ganha” do mercado mostra sua força. Ele ergue uma barreira a abordagens mais inovadoras, do tipo “ganha-ganha”. Explico.
A competitividade do ambiente empresarial faz brotar uma grande quantidade de conceitos e pré-conceitos entre os executivos. Entretanto, muitas vezes essas verdades absolutas só contribuem para bloquear iniciativas e possibilidades de inovação. Se a situação já é complexa em outros segmentos, no educacional convive-se com o agravante do conservadorismo extremo, onde a palavra “inovação” pouco comparece no vocabulário, tanto de educadores quanto de boa parte dos gestores. Uma postura diferente, que quebre essa lógica, é imediatamente descartada. Voltando à situação do início do texto, vamos ver quais seriam suas possibilidades de desfecho.
Agora, imagine que sua janela está aberta e você se permite admitir que uma terceira hipótese, mais inovadora, entre como uma brisa. Prossiga imaginando que essa mesma brisa de inovação também está soprando na vidraça do seu concorrente. Então, numa daquelas reuniões no sindicato, quando o assunto vem à baila num bate-papo entre os dois, vocês optam por quebrar o antigo paradigma.
Resolvem experimentar um jeito novo de lidar com aquela situação, criando uma espécie de “Central de Compensação”, onde cada uma das escolas “deposita” o número de alunos inscritos que ainda não foram matriculados nas devidas séries, por não atingir a quantidade mínima para formação de turma. Verifica-se, então, a possibilidade de completar esse grupo com alunos da outra escola, viabilizando, assim, uma nova turma. Ao invés de concorrentes, essas escolas passam a ser “colaborativas”.
Uma vez consumada a possibilidade de formação de turma, mediante consulta aos clientes, e efetivadas as matrículas, as escolas, agora colaborativas, passam a dividir as despesas e receitas daquela turma. Ou seja, onde apenas uma ganhava, ganham as duas. Mas como ainda não evoluímos para a quebra dos paradigmas anteriores, surge logo a pergunta: onde seriam matriculados os alunos dessa turma? Resposta: na escola que contribuir com o maior número de alunos.
Mas e depois? No ano seguinte, esses alunos não vão mais querer sair da escola... (partindo-se do pressuposto de que suas expectativas tenham sido plenamente atendidas, evidente). Nesse caso, nada de pânico. Enquanto permanecerem matriculados na escola colaborativa, permanece de pé o princípio do ganha-ganha. Cada um daqueles alunos continua tendo suas receitas e despesas rateadas, ainda que a turma inicial se dilua. Veja que nesse sistema, ambas conseguem alavancar receitas e obter lucratividade, ainda que com um número de alunos abaixo do seu ponto de equilíbrio e estudando em outra escola.
Uma boa sacada? Pode ser.
Inovador? Talvez, para o segmento!
Se olharmos para fora, veremos que montadoras de automóveis e outros tipos de empresas já dividem com seus concorrentes os custos de pesquisa, desenvolvimento e produção há muito tempo. Por que a escola não pode fazer o mesmo? Com a palavra, os gestores educacionais.