... A matriz criativa com que eu opero na atualidade provém dessa primeira matriz geradora. Tenho a matriz aí, em minha história gravada em minha pré-consciência.
Eduardo Pavlovsky
Modalidade de Aprendizagem é molde/matriz/esquema operacional utilizado nas situações de aprendizagem:o modo como ocorre o processo de construção de conhecimento no interior do sujeito que aprende.Interjogo entre conhecimento e desejo, objetividade e subjetividade, inconsciente e consciente.
Modalidades de Aprendizagem e de Ensinagemsão, portanto, as maneiras de cada um se aproximar do conhecimento, dar forma ao seu saber.
Re (visitando) experiências
Aprender / Outro / Vínculo Esquema Operacional / Situações de Aprendizagem
Não dá para separar essas frases essenciais ao processo de constituição do eu e ao processo de construção de conhecimento no interior do sujeito que aprende!
A frase-apelo “Mamãe/Professora, Eu quero Mamar/Aprender” saltou do inconsciente e me levou ao encontro de minha mãe e de minha primeira professora, pessoas significativas em minha vida e em meu repertório/histórico de aprendizagem.
Elas desabrocharam em meu consciente como lembrança/memória de um aprendizado essencial, fruto do encontro eu-outro favorável ao inter-jogo prazeroso/amoroso de uma modalidade de aprendizagem sadia.
Foi dito que a primeira pessoa que exerce a ensinagem é aquela que cuida do bebê e que com ele primeiro se relaciona. A segunda pessoa a imprimir traços mnemônicos em nosso caso de amor com o conhecimento é a primeira professora.
Quando a criança sai de casa para ir à escola e iniciar seu processo de socialização secundário, sai também em busca do conhecimento de si, do outro, do seu entorno e do mundo. Na verdade, está indo ao encontro de si mesma e de suas possibilidades de ‘aprendizagens’. O que irá apreender e aprender/compreender depende de seus anseios, interesses, necessidades e características próprias de lidar e apropriar-se do conhecimento nas inusitadas situações de aprendizagem.
Uma criança não precisa e nem sobrevive somente doa leitamento/alimento/ensinamento materno mas também do alimento/conhecimento/ensinamento culturalmente simbolizado/mostrado/guardado e entregue pelo professor-facilitador do seu processo de aprendizagem. Mãe e professora: imprescindíveis no desenvolvimento da auto-percepção, autoafirmação, autovalorização, percepção do outro, do entorno e do mundo. Ambas ocupando função primordial no cenário referente à atribuição de significados em relação ao aprender na vida do ser humano.
Entrelaçando idéias, conhecimentos e experiências sobre modalidade de aprendizagem, vislumbro um feixe de luz vinculando-me a vivências entre minha mãe e minha professora do primário que implantaram o espaço transicional para minha ação de aprender sobre mim mesma, o outro, o conhecimento e o mundo. Elas se configuraram como suporte para que eu pudesse viver/experimentar a angústia inerente ao conhecer-desconhecer inicial. Permitiram, enfim, que eu criasse uma modalidade de aprendizagem através de uma forma de ensinagem essencial/especial/fundamental para meu desenvolvimento vital, pessoal e profissional.
Sara Pain diz: “Na realidade, as satisfações que surgem da relação mãe/bebê são múltiplas e não derivam todas da alimentação [...] mas encontram no alimento um momento, em princípio, privilegiado”. Eu diria assim “... as satisfações que surgem da relação Mãe/Bebê/Professor/Aluno são múltiplas e não derivam todas da alimentação [...] mas encontram no Alimento/Aprendizado um momento, em princípio, privilegiado”. O afeto/vínculo entre essas figuras significativas na vida da criança/aluno será a ponte entre ela/ele e o conhecimento. Este primeiro vínculo funda um espaço que possibilita a ação de aprender e de ensinar com reciprocidade e favorece um ‘estado de graça’/palco onde a alma que aprende abraça o mundo das possibilidades de crescimento pessoal, socioafetivo e cultural.
Todo aprendente faz a viagem interior que lhe permite entrar em contato com o seu desejo de aprender, escolher/selecionar e apropriar-se do conhecimento através da elaboração objetivante e subjetivante.
Essas figuras expressivas mãe/professora na confecção da identidade pessoal, psicossexual e socio-afetiva sadia da criança/aluno permitem trocas significativas da criança consigo mesma, com o outro-entorno-mundo, além de vantagens objetivas, e ganhos subjetivos em termos de consciência de si/autoconhecimento, autoafirmação e em relação à maneira de se colocar/posicionar frente a um universo intersubjetivo essencial ao seu desenvolvimento psico-afetivo e sociocultural.
Nos dias de hoje, carente de respeito à individualidade do outro, é raro mãe ou professora posicionar-se no lugar de quem oferece ao filho/aluno sua capacidade de pensar para favorecer/facilitar-lhe a capacidade de pensar e organizar pensamentos diferentes dos pensados por elas.
Em todos os aspectos a Educação se concretiza no encontro/na troca das idéias e através de uma relação prazerosa/amorosa. O que o aprendente aprende do ensinante é um modo de se relacionar com o conhecimento e isso é tão importante quanto o modo como ocorre o processo de construção de conhecimento no íntimo do aprendente. Esse processo poder ser estruturante ou desestruturante/ desorganizador na história de vida de um ser humano.
Tantas vezes ouvi em aulas de psicologia do desenvolvimento, da personalidade e educacional que o sujeito aprende quem e como ele é pelo que o outro diz. Então, o outro é quem lhe confirma sua existência.
Em Psicopedagogia “só há um sujeito que aprende se ele se encontrar/relacionar com o outro”.
O conceito de Modalidade de Aprendizagem de Alicia Fernández traz à tona a importância da matriz que fundamenta o eu do sujeito e suas possibilidades de autoconhecimento, autoafirmação através da construção da própria capacidade de pensar diferente do outro sem abrir mão do vínculo/ponte entre ambos, isto é, entre alguém que ensinaaprende ou aprendeensina. A especificidade/grandiosidade dessa relação intersubjetiva é que ela estabelece um vínculo que permitirá alguém aprender e ensinar.
Psicopedagogicamente, “modalidade de aprendizagem é a forma pela qual cada ser humano, em particular, estabelece sua relação com o conhecimento. É um modo de vincular-se um ensinante e um aprendente em relação ao conhecimento”.
O que o aprendente aprende do ensinante é um modo de se relacionar com o conhecimento. Se o ensinante tem um vínculo patológico com o conhecimento ele vai passar isso para o aprendente.
Somos movidos pelo desejo do outro. Vamos atrás do conhecimento porque queremos sentir o que imaginamos que o ensinante sente em relação à matéria ou ao assunto/conhecimento que ele domina e pelo qual está encantado.
Articulando modalidade de aprendizagem e subjetividade em relação ao processo de aprendizagem, concluímos que o aluno só busca o conhecimento porque quer sentir o que imagina que o professor sente pela matéria.
E assim, poderemos seguir vida-a-fora cada qual com sua maneira própria de aproximar-se do objeto de conhecimento formando um saber personalizado.
“Nem tanto ao mar, nem tanto à terra” diz o refrão. Nem tanta hiper/hipoassimilação e nem tanta hiper/hipoacomodação! O padrão normal fica no equilíbrio das possibilidades de aprendizagem no nível assimilativo-acomodativo.
As modalidades de aprendizagem estão ligadas à estrutura da personalidade. O ser humano com uma modalidade de aprendizagem sadia deve cuidar para não perder o brilho frente a um ensinante exibido que não autoriza a diferença e o pensamento.
A modalidade de aprendizagem é o alicerce da individualidade alheia e nossa. Está sempre se transformando de acordo com nossa capacidade de construção do conhecimento que se dá através de um modo particular de cada um perceber-se, perceber e relacionar-se com o outro e com o mundo.
É preciso que mãe/professor reconheça o processo de pensar do filho/aluno e lhe garanta o direito de pensar diferente dos outros.
Cada um com sua forma particular de aprender; ninguém ensina ninguém!
“A criança, sensível a tudo o que não se diz, consegue através da confrontação de si mesma e dos outros, a possibilidade de um novo começo, inclusive de um primeiro começo, como ser autônomo, não alienado no desejo dos pais.” Maud Mannoni