Educação continuada com foco em técnicas e métodos inovadores é nossa missão. Fale conosco

Objetividade e Subjetividade: uma via de mão dupla.

Cláudio Pires Cardoso

A aprendizagem ocorre na relação entre a objetividade ( a realidade, o conhecimento, a lógica, o espaço, o tempo, o intelecto) e a subjetividade ( o simbólico, o desejo, as representações, os afetos). Nos processos de ensino/aprendizagem, o simbólico se transmite ao mesmo tempo que o conhecimento dito "científico", ou seja, a transmissão do conhecimento é também a transmissão de nossas formas de ser e de crer. É importante assinalar que os processos de ensino/aprendizagem são indissociáveis porque internalizamos modelos de aprender em reciprocidade aos modelos de ensino com os quais interagimos durante a vida nos grupos aos quais pertencemos. (Beatriz Scoz)

Segundo o texto do módulo IV, 1ª lição, “...a psicopedagogia vê a aprendizagem como interface entre inteligência e desejo, razão e emoção, objetividade e subjetividade, a estratégia que for seguida deverá sempre alternar ambos os campos privilegiando aquele que mais necessita ser trabalhado em cada caso particular.” Dentro desta perspectiva, o terapeuta da aprendizagem precisará estar atento às características manifestadas pelo sujeito aprendente para poder elencar as atividades interventivas que contribuirão para a superação da dificuldade observada.

Verificando as hipóteses da modalidade de aprendizagem formadas pelo indivíduo, é possível delimitar o campo de propostas interventivas a ser aplicadas. Acompanhando o quadro abaixo podemos melhor compreender o binômio objetividade/subjetividade e suas implicações quando estas não estiverem equilibradas de modo a proporcionar ao sujeito a aprendizagem adequada.

HIPOACOMODAÇÃO

Consiste em adaptar-se para que ocorra a internalização. A sintomatização da acomodação poder resultar numa dificuldade de internalizar os objetos.

HIPERACOMODAÇÃO

Consiste em abrir-se para a internalização, o exagero disto pode levar a uma pobreza de contato com a subjetividade.

HIPOASSIMILAÇÃO

Sua sintomatização resulta na pobreza no contato com o objeto, não assimilando-o, mas apenas acomodando-o.

HIPERASSIMILAÇÃO

Consiste no predomínio dos aspectos subjetivos sobre os objetivos

Considerando que a objetividade (a realidade, o conhecimento, a lógica, o espaço, o tempo, o intelecto) e a subjetividade (o simbólico, o desejo, as representações, os afetos) são indissociáveis e deflagram nossos modos de ser e de fazer, o desequilíbrio comprometem as estruturas da aprendizagem acarretando a patologia.

Na Hipoassililação, por exemplo, sua sintomatização se traduz pela pobreza de contato com o objeto que resulta em esquemas pobres e uma dificuldade de lidar com o lúdico e a criatividade. Seria como se a energia transformativa deixasse de influenciar as estruturas cognitivas.

Se a condição do indivíduo for hiperassimilativa/hipo-acomodativa, percebemos que a criança não aprende em virtude de um mecanismo altamente subjetivo. Neste caso, a estratégia interventiva deve privilegiar atividades objetivas, que conectem com o real.

Para melhor ilustrar esta questão apresento um breve relato de um caso.

Caso N.

N. tem 5 anos, freqüenta o 3º período da Educação Infantil de uma escola municipal. Seus pais são presentes no que tange ao acompanhamento e participação escolar. N. possui vínculo positivo com os pais e com a irmã de 11 anos, matriculada na mesma escola e no mesmo turno. Ela o ajuda em casa com suas tarefas escolares e demonstra afeto por e ele.

N. é uma criança pouco sociável e se comunica somente quando requisitado. Nos momentos da rodinha de conversa, geralmente aparenta estar desconectado e às vezes encontra-se fantasiando sobre as questões discutidas. A professora, percebendo as características de N. solicitou a ajuda do Orientador da escola que ao conversar com o aluno identificou indícios de hiperassimilativos. É fato que a criança nesta faixa etária simboliza sua realidade, entretanto, N. parece viver em um “conto de fadas”.

Segue transcrição de trecho de uma conversa com N.

  • Qual é o seu nome?
  • Eu sou um dragão voador.
  • Você gosta de voar?
  • Não posso conversar agora.
  • Por quê?
  • Meu cérebro ainda está dormindo.

Em uma entrevista com a mãe do menino, foi revelado que o pai estimula demasiadamente as fantasias do filho e que acha “uma gracinha” vê-lo viajando no mundo da imaginação. Ela não está de acordo com essa postura do marido e questiona isso temendo que N. possa apresentar distorções em sua identidade, adquirir problemas na aprendizagem e manifestar dificuldade para distinguir entre o real e o simbólico.

A partir do relato acima podemos perceber que N. vive um conflito entre a subjetividade e a objetividade, visto que recebeu estímulos que supervalorizassem sua imaginação. Por isso, grande parte do tempo, o aluno pensa estar situado em um universo paralelo à realidade. Cabe neste caso, realizar atividades que ofereçam maior contato com a lógica, com o pensamento reflexivo, com a realidade.

Evidentemente, o terapeuta da aprendizagem programará uma intervenção pautada no resgate da objetividade de N., sem, claro, prejudicar sua capacidade de simbolismo, pois para a criança é preciso desenvolver de maneira saudável o equilíbrio entre estas duas vertentes do pensamento.

Podemos concluir, segundo o relato acima que a objetividade não prescinde a subjetividade. Ambas devem atuar de forma harmônica. E, identificando os elementos causadores de conflito é possível remover as barreiras que circunstancialmente estão causando dificuldade na apreensão da realidade e na interação com o meio de modo a assimilar os conhecimentos a ele pertinentes.

Portanto, Cabe ao psicopedagogo transitar entre estes aspectos subjacentes à aprendizagem – objetividade/subjetividade – para proporcionar ao paciente um espaço de reflexão sobre si, sobre o vínculo formado com a aprendizagem, sobre a forma como a família concebe e favorece o conhecimento e sobre a modalidade de aprendizagem exercida pelo sujeito. Atuando de maneira sistemática, investigativa e assistiva é possível penetrar no mundo patológico que aprisionou a aprendizagem e apontar para as chaves que irão libertar o saber.

Bibliografia

AMARAL, Silvia. Psicopedagogia, um portal para a inserção social. Ed. Vozes. Petrópolis, 2003.

CHAMAT, Leila Sara José Chamat. Relações Vinculares e aprendizagem: um enfoque psicopedagógico. Vetor. São Paulo, 1997.

FERNÁNDEZ, Alicia. A inteligência aprisionada: abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. ArtMed. Porto Alegre,1991.

__ Os idiomas do aprendente.ArtMed. Porto Alegre,2001.

__ O saber em jogo.ArtMed. Porto Alegre, 2001.

PAÍN, Sara. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. ArtMed. Porto Alegre, 1992.

WADSWORTH, Barry J. Inteligência e afetividade da criança na teoria de Piaget.Livraria Pioneira Editora. São Paulo, 1992.

WAGNER, Adriana. Família em cena. Ed. Vozes. Petrópolis, 2002

WEISS. Maria Lúcia L.Psicopedagogia Clínica. DP&A Editora. Rio de Janeiro, 2000.

Webliografia:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Aprendizagem

http://www.psicopedagogia.com.br/entrevistas/entrevista.asp?entrID=31



Cláudio Pires Cardoso – Pedagogo – Orientador Educacional. Psicopedagogo Clínico Institucional. Formando em Atendimento Educacional Especializado pelo MEC. Prestador de serviços em Assessoria Pedagógica, Psicopedagógica e Motivação Humana. Contador de Histórias pelo PROLER.

Acesse seu Ambiente Virtual

Cadastro Fundação Aprender Facebook Fundação Aprender Acesse o nosso blog!