A verdadeira viagem da descoberta não consiste em procurar novas paisagens, mas em possuir novos olhos.Marcel Proust
Antes que este texto tomasse corpo, busquei o refúgio inspirador da solidão. Assim, sozinho no silêncio do meu quarto, fiquei imaginando nós dois: eu e o texto que deveria escrever para a disciplina Aprendizagem: novos paradigmas.
Entre uma idéia e outra, tive a certeza de que gostaria de escrever algo mais livremente, sem tantas preocupações com formas, regras, entre outras exigências. Não que isto não seja importante, pelo contrário, é que minha intuição desejava trilhar por caminhos menos convencionais. Coisas da intuição! Diante disto, cheguei à conclusão de que um artigo científico não seria o tipo de texto ideal para aquele momento. Vasculhei então os arquivos de minha memória e me lembrei de um gênero textual, o ensaio. A grande vantagem do ensaio está na maior liberdade de expressão que ele concede ao seu autor. Regras, normas continuam valendo, mas há uma maior flexibilidade na escrita. Não tive mais dúvidas, eu iria me aventurar por este caminho.
Escolhido o tipo de texto a elaborar, fui em busca de algo que me servisse de pontapé inicial entre o que deveria escrever e a meta a alcançar. A tão sonhada inspiração me veio através de uma entrevista concedida pela escritora portuguesa Maria Gabriela Lhansol.
Em uma de suas raras entrevistas, a escritora falava de um certo tipo de olhar. Não se tratava de um olhar qualquer, mas daquele capaz de romper com o óbvio, com o corriqueiro, ou seja, o que ela chamou de “olhar que cinde”. Só para refrescar nossa memória, cindir significa quebrar, romper. Não é à toa que o texto de Lhansol rompeu com o tradicionalismo da Literatura Portuguesa.
A partir desse olhar “lhansoliano”, acreditamos ter encontrado um caminho capaz de nos conduzir aos nossos objetivos. Em outras palavras, sob tal perspectiva, tentaremos articular a psicopedagogia enquanto um conhecimento do novo paradigma no modelo da complexidade com a figura da mandala. Para tanto, são necessários novos olhares, uma nova visão capaz de romper com velhos paradigmas, com as amarras que nos prendem.
Hoje, a cada instante, somos bombardeados por milhares de informações e acontecimentos. O volume é tão grande e nossa capacidade de processá-los é tão pequena, que nos sentimos perdidos, com a sensação de estarmos num beco sem saída. Angustiados, ficamos imersos no caos do excesso de informação.
Esse sentimento de mal-estar surge da nossa incapacidade de saber enxergar e relacionar todos esses fatos e informações. Não conseguimos entendê-los, uma vez que ainda somos prisioneiros de uma velha ordem pautada na exclusão, na fragmentação, na visão retilínea do modelo cartesiano. Tanto dividimos para conhecer, que acabamos por não mais compreender.
Sob as vendas do paradigma cartesiano/newtoniano, nosso olhar aprendeu a ver o mundo, os acontecimentos, através da relação causa/conseqüência. Como resultado, criamos a figura ilusória do Tempo enquanto uma linha reta, na qual uma causa gera uma conseqüência e assim sucessivamente até o infinito. A propósito desta perspectiva fechada e impossível de ser rompida, nascem os mais variados ditos como, por exemplo, o famoso “pau que nasce torto morre”.
Compreender essa sensação angustiante, na qual não sabemos o caminho a tomar, só será possível com a mudança no modo de olhar. Refiro-me à necessidade de um olhar voltado para o todo, capaz de enxergar a realidade e sua complexidade. Ao que nos parece, a visão de rede encontrada na figura da mandala representa essa nova perspectiva, a luz no fim do túnel.
Palavra de origem sânscrita, mandala significa círculo. Antes de mais nada, a idéia de circularidade já nos remete para a necessidade de estarmos sempre girando, movimentado, revendo nossos posicionamentos. Dessa capacidade constante de ir e vir, de sempre mudar, é que nos vem a possibilidade de entendermos o mundo e seus complexos caminhos. Além disso, as raízes orientais da figura da mandala abrem caminho para a superação do antigo paradigma ocidental, cujas bases remontam à fragmentação do todo.
Visão em rede, complexidade, totalidade, unidade na diversidade, holística são alguns dos fios que se entrelaçam numa rede chamada mandala. Nesse entrelaçamento nenhum fio é mais importante do que o outro e não está isolado, uma vez que é da união de todos eles que se chega ao todo da mandala. Em outras palavras, estamos diante de uma imagem complexa, cuja compreensão só é possível não pelas vias da análise, mas da síntese.
O resgate da visão do todo que nos escapou, ao trilharmos cegamente pelos caminhos retilíneos do velho paradigma cartesiano, requer novos olhares. Dentre estes, encontra-se a visão holística, ou seja, aquela capaz de enxergar a totalidade não em suas partes isoladamente, mas na complexa rede formada por todas elas.
Neste cenário que se cria em busca do todo perdido, surge uma nova área do conhecimento, a Psicopedagogia. Voltada para o campo da aprendizagem, ela trabalha com a prevenção, o diagnóstico, com a busca de soluções para os problemas aí encontrados.
Diferentemente do saber isolado e compartimentado das outras disciplinas, a Psicopedagogia visa superar a fragmentação do conhecimento, valendo-se de uma perspectiva transdisciplinar. O saber psicopedagógico surge não da divergência entre as demais áreas do conhecimento, mas da convergência entre elas. Bem diferente da visão excludente e segregária que fecha cada saber em uma especialidade, a Psicopedagogia se abre numa relação dialógica com as outras formas de conhecimento.
O psicopedagogo, por exemplo, diante de um aluno com problemas de aprendizagem, não tenta solucionar a questão sob um único ponto de vista. Ele se lança para além dos muros da escola, indo buscar a chave para entender o problema, na família, no contexto onde o aluno se insere. Para isso, são utilizadas as contribuições da Psicologia, da Filosofia, entre outras áreas do conhecimento.
Se antes o princípio norteador do conhecimento e, consequentemente, da educação e da aprendizagem era o da análise, hoje o caminho é outro. A velha concepção do dividir para entender cede lugar ao unir para conhecer, compreender. Dentro dessa nova perspectiva, a Psicopedagogia, passo a passo, vai se firmando como um saber munido dos novos olhares capazes de enxergar a rede complexa que envolve a aprendizagem.
O olhar de que nos fala Maria Gabriela Lhansol, a saber, aquele capaz de romper com o óbvio, revelando um novo caminho a trilhar, encontramos na relação entre o saber psicopedagógico e a figura da mandala. Mais ainda, ele aponta para uma leitura possível na qual se pode articular a Psicopedagogia enquanto um conhecimento do novo paradigma no modelo da complexidade com a mandala.
Hoje, compreender o mundo que nos cerca só é possível a partir da adoção de um modelo complexo, no qual parte e todo estejam integrados, unidos. Ao que nos parece, essa possibilidade de entender a totalidade encontra-se tanto nos traços constitutivos de uma mandala quanto nos caminhos trilhados pelo psicopedagogo.
Assim, podemos dizer que do percurso trilhado entre mandala e Psicopedagogia, nasce a possibilidade de uma nova leitura capaz de enxergar o saber psicopedagógico enquanto parte integrante do novo modelo da complexidade. Daí ser indispensável à Psicopedagogia ter olhos e visão de mandala.